Um imperador de Guiné pode fazer você enxergar ao seu redor

Bandeira oficial de Guiné

Bandeira oficial de Guiné

Como todos os dias, eu ia para o trabalho. Pego o metrô, vou lendo alguma revista ou livro, saio da estação, caminho cerca de 10 minutos e chego ao trabalho.

Porém, na quarta-feira, 16, foi um pouco diferente. Fui lendo a revista Piauí, edição 108, especificamente a matéria “Não controlamos o destino de nossos corpos” escrita pelo jornalista Ta-Nehisi Coates, correspondente do The Atlantic. Nela, o autor deixa uma carta ao filho contando sobre os primeiros problemas enfrentados por ser negro, pelo medo de morrer pelas mãos de um policial pelo simples fato de não ser da mesma raça. Coates mistura ideias, fatos, medo e raiva nesse texto, e com certeza me fez abrir um pouco mais a mente sobre o racismo que os americanos negros sofrem, e consequentemente, sobre as questões os brasileiros negros sofrem.
Mas esse texto também me entristeceu, no ponto que comecei a refletir sobre o preconceito que as pessoas sofrem por ter nascido com “a cor errada”, “a classe social errada”, a “orientação sexual errada” ou “o gênero errado”. Quanta dor, sofrimento e humilhação as pessoas não passam por terem nascidas “erradas”?
Pensei na luta que cada uma delas tem que travar para que a classe dominante entenda que ninguém nasceu errado, que todos tem deveres e direitos como qualquer um, independente de todas as características citadas.

Falando em luta, Coates diz que o nome de seu filho é Samori em homenagem ao líder africano, Samori Touré. Confesso que nunca havia escutado sobre ele, assim como em nenhuma aula de história ouvi falar de Dandara, Luís Gama, Mandela, Martin Luther King ou qualquer outro negro que lutou contra o racismo e a opressão.

O imperador guineense (foto: Domínio Público)

O imperador guineense (foto: Domínio Público)

Touré nasceu em Guiné, em 1830, e consolidou o império Mandinka, com o intuito de organizar seu povo. Construiu um exército com cerca 30 mil homens e em 1882, começou a guerra contra a França. Após a conferência de Berlim, que dividiu o continente entre os países europeus, os franceses foram com toda força para destruir o império, que resistiu por mais de 10 anos até ser derrotado em 1894. Samori continuou desbravando o norte africano, e só em 1898 foi capturado e exilado no Gabão. Morreu dois anos depois, e até hoje é visto como um grande líder no combate aos colonizadores.

Meio distraído, eu continuava indo ao trabalho. Ao esperar o farol abrir olhei para o lado e vi um rapaz em sua cadeira de rodas, com as roupas bem rasgadas, tentando subir uma rua levemente acentuada. A cadeira estava bem precária, e ele mal conseguia sair do lugar, mesmo fazendo muita força. Pensei em ignorar, com a desculpa de estar atrasado, mas aquele texto martelava na minha cabeça. Fui até ele e perguntei se eu podia ajudá-lo, já colocando a revista sobre o seu colo e empurrando-o rua acima.
Ele mexia na revista, como se tentasse ler ou quisesse folhear, e eu continuava empurrando, pingando de suor, pensando que o acaso não existe, o destino tinha cruzado nós dois. Chegando na parte plana da rua, informei que estava virando à esquerda, e desejei boa sorte. Ele não falou nada, apenas fez o sinal da cruz, e ali entendi que as vezes as palavras são desnecessárias. Sim, ele era negro, e provavelmente, é mais um dos milhares que sofrem preconceito diariamente nesse país.

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