Afinal, o que nós queremos?

Desde meados do século 19 organizações femininas originadas de movimentos operários protestavam e lutavam incansavelmente por melhores condições de trabalho e salários mais justos. Tão logo manifestações em prol da igualdade social e política e pelo direito de serem consideradas seres humanos tão capazes quanto os homens também ganharam espaço. Ganhando aos poucos notoriedade, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, em 1910, foi aprovada uma resolução para a criação de uma data anual para celebrar os direitos da mulher, com o objetivo de honrar as lutas femininas e obter suporte para instituir o sufrágio universal. Eis que, 8 de março, cá estamos ‘comemorando’ o dia Internacional (de luta) da mulher.

Introdução rápida, temos! Claro que a história é muito mais detalhada, mais rica, com muito mais luta, mais dificuldades, datas e conquistas. Mas o objetivo era introduzir o assunto e trazer pro hoje! Pois bem, tanto tempo depois e a luta feminina continua a mil, quantas coisas pouco mudaram ou até retrocederam, e nós continuamos firmes e seguindo na batalha. Mas ainda tem muito gente que se pergunta o que, afinal, nós ainda queremos, como se não sofrêssemos violência psicológica, física e sexual todos os dias, como se o simples fato de ser mulher não gerasse em nós medos diários e exposição, como se ainda não fossemos extremamente desrespeitadas, vistas como objeto de usufruto dos homens, como se a sociedade e o patriarcado não esperassem de nós atitudes submissas e padrões, e não nos culpabilizassem pelas atitudes machistas e agressivas que sofremos a todo momento.

Ilustrações do livro Mulheres, da artista Carol Rossetti, que ilustra empoderamento feminino sobre várias temáticas.

Ilustrações do livro Mulheres, da artista Carol Rossetti, que ilustra empoderamento feminino sobre várias temáticas.

A maior afirmação para este dia é que o presente ideal para as mulheres é uma flor, já que “toda mulher gosta de flores”. Olha, eu gosto sim de flores, são bonitas alegram a casa, enfeitam, são cheirosas… mas queria mesmo era respeito, sabe? Queria ouvir e ver mais direitos, tipo aborto legal, seguro e gratuito. Queria mesmo poder andar na rua sem medo de ser estuprada, sem ter que ouvir coisas nojentas, ‘elogios’. Queria poder não me preocupar com a segurança da mulher que eu vejo entrando numa rua deserta, com a segurança da minha amiga que passeia com a namorada, não queria que elas tivessem que lidar com ofensas lesbofóbicas e agressões físicas.   Queria não ter que ver mulheres vítimas de violência doméstica, de feminicídio, e depois culpabilizadas por tal crueldade, seria um presente e tanto não ter que me preocupar em sofrer tantos absurdos pelo simples fato de ser mulher.

Homenagens estereotipadas em 8 de março, não é o que nós queremos. Nós temos muitas pautas importantes que precisam ser debatidas, políticas públicas que necessitam ser efetivadas urgentemente, e problemas diários que não serão resolvidos, e muito menos esquecidos, com premissas machistas que esvaziam o verdadeiro significado da data. “O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países”, professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutoranda em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp).

12191717_10207450342518984_5470877887559865017_n

^C2AC964286C5B7F49A85128BB42813641D3ECA0F6277AB0C94^pimgpsh_fullsize_distr

Anúncios

12 comentários sobre “Afinal, o que nós queremos?

  1. Texto maravilhoso sobre esse tema que a gente vive diariamente. Que maravilha ter mulheres como você lutando por um mundo melhor. Isso é inspirador! Tenho certeza que esse texto deve ter impactado uma galera que antes nem pensava muito sobre isso. Que a gente caminhe para um mundo mais justo cada dia mais.

    ❤ Tamo junta!

    Curtido por 1 pessoa

    • Pois é, Christine. Ainda tem essa! Não bastasse tanta falta de respeito, ainda temos que aguentar zombaria. Não tá fácil mesmo, mas pra tristeza dessa galera a gente não tá nessa luta pra abaixar a cabeça nem desistir, pelo contrário!

      Curtir

  2. Não tem como discordar do seu texto, acho super hipocrisia que haja um dia para nos darem flores e compartilharem textinhos e no dia seguinte estar chamando de gostosa na rua, não ajudando a mãe em casa ou algo do tipo. 8 de março tem que ser o dia que nós, mulheres, damos voz àquelas que são caladas pela violência diária (qualquer que seja a forma dessa violência).

    Curtir

  3. Em toda a minha vida, considero esse 8 de março o mais importante que presenciei, não pelas homenagens, mas por todas as mulheres que abriram os olhos nesses ultimos ano, por tantas mulheres conseguirem se empoderar, por tantas que que lutam pelo nosso reconhecimento como cidadãs dignas e não coadjuvantes dos homens. Muita força para todas.

    Curtir

  4. Meu problema com as mensagens “estereotipadas” é que, para muitos, elas representam aquilo o que basta em todo o contexto do Dia Internacional da Mulher e da mulher em si, diariamente. Acredito que seguirei gostando de muitas dessas mensagens, assim como gosto das flores, mas sempre buscando fazer com que as pessoas enxerguem, digam e, sobretudo, façam além.
    Coragem e força para nós!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Dia internacional da mulher,nos faz rever histórias antigas de mulherese que sobreviveram a ditadura militar e olha que não foram poucas,hoje eles conseguem desenvolver trabalhos que os homens fazem,todos os dias é dia da mulher,que tem garra e Fé pra conseguir o que quer que seja. 😀

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s