Não há tempo que volte…

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Lembro que, sempre que chegava a notícia de algum falecimento, a primeira coisa que você dizia era que pra morrer bastava estar vivo. Eu cresci ouvindo isso, e aos poucos se tornou uma ideia natural. Aos poucos fui entendendo que ninguém está preparado para morte, seja para morrer ou pra lidar com a perda de alguém. Mas que muitas vezes ela não manda aviso, a gente não tem tempo de se preparar, e mesmo quando tem, não consegue. E só o que a gente precisa saber é que ela pode sim chegar a qualquer momento, pra qualquer um, em qualquer lugar. Estar ciente de tudo isso não me ajudou muito quando ela chegou pra você, mas amenizou um pouco as coisas. Foi sem aviso, devastador, do dia pra noite (literalmente), mas foi na sua hora.

 Ela te pegou no momento que você mais exalava vida, quando se preparava pra sua corrida matinal. Setenta e cinco anos e, trocado para correr 10K, foi muito além dessa distância. Depois de todo desespero, todas as burocracias e últimos momentos com você, voltamos pra casa. Todo mundo estava na cozinha, tinha família, vizinhos, amigos. E, conversando sobre a morte, entre muitas crenças e teorias, eu falei ‘pra morrer, basta estar vivo’. Eu sei que é o que você teria dito, e, naquele momento exato, as palavras simplesmente saíram. De alguma forma isso amenizou a conversa, e de lamentações a gente passou a falar sobre lembranças, sobre as coisas que você deixou marcadas em nós. Entendi um pouco mais porque você sempre dizia isso. De alguma forma, acalma os ânimos.

Daí pra frente tudo na vida mudou. Cada nota de falecimento que chega desde então eu posso  imaginar a dor da perda. Uma dor que eu não desejo nem nunca vou desejar pra ninguém. Mas também fico imaginando quantas coisa boas ficaram, quanto carinho, quanta aprendizagem, quanta lembrança gostosa. E no final, eu sei que nessa sua frase simples você sempre quis dizer que a gente precisa aproveitar as pessoas que estão do nosso lado ao máximo. Amar, respeitar, cuidar, dar atenção, ouvir, falar. A gente precisa viver as pessoas enquanto é tempo, enquanto há vida, porque o amanhã, na verdade, não existe pra ninguém, mas pode continuar não existindo pra alguém que a gente ama muito. Eu queria ter te vivido muito mais, queria que você tivesse conhecido o Rafa, que fosse pras feiras comigo vender bordados, porque eu sei que você ia se amarrar em fazer isso. Mas eu sei que tudo o que a gente viveu, no tempo que tivemos pra viver, foi incrível e tudo o que você me deixou nunca vai morrer. Você me ensinou muito em vida, e continua me ensinando, vô! Você é incrível, obrigada por ter passado por aqui ♥

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